sábado, 23 de outubro de 2010

E assim, quando me vi, era a antropologia o meu reflexo!

*À Felipe Alves

A antropologia é uma lente, um olhar diferenciado sobre as coisas, sobre o mundo, um objeto. Um delinear de uma observação, uma construção daquele próprio que se define antropólogo. Mas este não é aquele que lançando um olhar sobre um dado objeto, é capaz de percebê-lo e explicá-lo na sua completude, esta nunca existe no seu sentido concreto e eterno.

O antropólogo é sujeito na relação construída por ele, e ao mesmo tempo no seio da sociedade. Parafraseando Durkheim, a sociedade é cápsula do homem, sua substancia. Ele é o que procura por algum arranjo metodológico e sensitivo enxergar o sentido existente sobre algum aspecto social possível de uma observação. Feliz! Quase tudo, senão tudo é passível de uma interpretação. O que não é a mesma coisa que uma mera opinião, até porque, opinião todo mundo tem.

A diferença é que o olhar do antropólogo é mediado por teorias, teorias que ele tenta pôr em diálogo com aquilo que pesquisa. Se bastasse uma opinião comum sobre uma dada realidade, não se formava antropólogos. Não que seu olhar seja mais válido que outro, mas ele vê, enxerga com referenciais próprios de seu campo, e é diferente de outra visão qualquer, por mais desafiante que seja a sua cegueira, de uma forma ou de outra, é um cientista, e um cientista ler o mundo de uma forma particular.

E me desculpem por voltar a esse discurso já tão mencionado. Essa forma particular de ler ou enxergar do antropólogo, não é, entretanto, a única ou verdadeira possível, como diria Kuhn, existem tantas realidades quantas interpretações existirem, da mesma forma que há de existir tantos olhares conforme o número antropólogos que se propuserem a observar um mesmo objeto, que na verdade nunca é o mesmo, já que este, e agora me vem Strathern, é sempre uma construção do pesquisador. O olhar de um é sempre diferente do olhar outro, pois, a antropologia é interpretação, e essa é subjetiva, há um diferencial em cada lente, a minha me parece rasurada, o bom disso, é saber que ela nunca vai estar de todo perfeita, o que me fará acreditar que eu nunca estarei a dogmatizar o mundo, a me contentar com o que penso que já aprendi. O que eu quero é ter dúvidas, é fazer busca, e nunca encontrar a resposta certa. Até porque, ela não existe!!

Eu penso que o antropólogo, não é aquele que sabe explicar da forma mais correta possível, se é que aqui cabe esse termo. Para mim, ele é o que se questiona e se percebe questionado. É o que busca a resposta ou respostas se preocupando antes com as perguntas a fazer. É o que ciente da sua ciência, se coloca na relação mesmo sabendo que é antes uma construção sua, é o que dialoga e faz do campo uma morada, é o que se permite errar e admite. É o que não só rompe com as pré-noções de seu campo, mas as toma para pensar o que investiga, é o que respeita seu próprio sentimento. É o que quebra seus próprios muros e preconceitos ao mesmo tempo em que os lê!

Tantas crises, tantos temas, tantos incômodos aos meus amigos queridos. Tantas distrações, leseiras, inquietações, uma infinidade de perguntas e as respostas que só me geravam mais dúvidas. O medo do que enxergaria, e se enxergaria alguma coisa. Afinal eu poderia estar tão cega, talvez, incapaz de me perceber numa teia de relações que nem se eu quisesse poderia sair.

Tantas teorias, metodologias, pontos diversos. Um campo, uma paixão, um olhar meu, tão meu, talvez meu. E novamente, eu poderia estar sendo tão cega!

Eu não sabia ao certo, na verdade, ainda não sei. São sempre os meus passos tão curtos, minhas reflexões tão lerdas para algum achado, um significado que fale alguma coisa do outro pra mim e de mim para o outro.

E assim, eu me vi, e quando consegui me enxergar, era a antropologia o meu reflexo!!!!


Os meus passos são tão curtos, minhas reflexões tão lerdas... e meu caminho tão longo. Aqui está, os pés quem sabe de uma antropóloga!

Escrito por Cicinha Andrade em 23 de Outubro de 2010

3 comentários:

  1. Belo texto Cicinha! Concordo com alguns pontos de sua reflexão, mas não deixe que somente sua paixão lhe mova, da mesma forma que você não deve ser guiada pela razão, apenas! E lembre-se que seu reflexo não é somente a antropologia, você é muito mais do que isso! Suas identidades e papéis são múltiplos! Um beijo enorme!

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  2. Mais uma coisa: de fato, o caminho é longo, tortuoso, cheio de obstáculos e de pessoas estranhas, nossos passos, às vezes, nos dão a impressão de que são curtos. Mas essa trajetória, se você tiver vontade, é bastante gostoso de ser percorrido, e cheio de aventuras e novidades!!!! Lembre-se que você não está sozinha e que suas dúvidas não são individuais!!! Beijos!!!

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  3. Verdade Fabi, ainda que seja a antropologia meu reflexo, não posso ser tão cega e pensá-la como meu único referencial, como lembrou você, eu tenho mais que uma identidade,e, portanto, meu papel não é uno. Obrigada por me ajudar a pensar! Feliz tu me lembrar que minhas dúvidas não são individuais.
    Beijo do tamanho do pôr-do-sol!!!

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