É uma tendência humana pensar que somente nós sabemos e podemos falar sobre as coisas, sobre o mundo dos outros. Quando não atribuímos esse papel a nós mesmos, no mínimo, o designamos a alguém cujo consideramos capacitado para tal coisa. Ignorância nossa, ninguém pode falar sobre o mundo do outro de forma tão precisa quanto ele mesmo.
Pensar sobre essa questão é colocar em debate uma discussão antropológica importante. Chamo a atenção para isso, porque estou iniciando meus trabalhos de campo partindo do método antropológico. Este valoriza antes de qualquer coisa a própria fala do sujeito (isso é fascinante). Longe de mim, achar que o que eu li antes de vir a campo, e li muita coisa sobre a área que pesquiso me é o suficiente para interpretar o mundo empírico com o qual eu pretendo trabalhar. Longe de mim, querer enquadrar essas práticas sociais dentro de uma teoria como se eu estivesse falando alguma verdade, como se eu fosse a cientista social (antropóloga) que soubesse como organizar, controlar o meu campo, o mundo do outro que não o meu próprio.
Como é difícil ser tal coisa, ou melhor, aspirante de. Ser ou tentar ser antropóloga,é antes e acima de tudo, reconhecer tal humildade, pois, não somos nós técnicos treinados para pensar a verdade sobre um dado mundo empírico. Somos pessoas comuns, com limitações. De forma que nossas lentes mesmo teóricas nos enganam, nos cegam, ou seja, trabalhamos em meio à imprecisão. Somos tanto quanto as outras pessoas humanas, carregadas de subjetividade, desejo, preconceito...
Não quero a partir desse discurso “matar a ciência”, ou dizer, que cientista social não faz ciência, lógico que não é isso, até porque, sou muitíssimo apaixonada pelo que faço, acredito nas ciências sociais. O que exponho se apresenta como uma maneira de me policiar, meu propósito é refletir, é refletir sobre sua limitação. Pois, não se deve acreditar cegamente em nada, nem mesmo na ciência para quem acha que é isso uma grande descoberta. Não é ela a única forma de conhecimento válido. Logo o cientista não é mais sábio que o homem que trabalha na plantação, o marceneiro que dá forma a madeira, o cozinheiro (a) que assa o bolo... "O cientista não sabe mais sobre política que o cidadão comum". O que existe são formas diversificadas de conhecimento, são maneiras diferenciadas de entender, de compreender o mundo, o mundo que não de outro, mas o nosso próprio.
Nesse caso, qual seria o papel da ciência e do antropólogo? O que faz a antropologia? Sobre a ciência (a ciência social), o que posso dizer, é que ela não controla nem organiza nada, nem deve ter isso como pretensão. Como ciência antropológica, se utiliza de elementos teóricos para pensar o mundo empírico. Porém, sem tentar enquadrá-lo dentro de teorias. Dialoga, conversa com o campo, se coloca dentro do campo. Ela impulsiona os sujeitos pesquisados a pensar sobre seu próprio cosmo (mundo). A antropologia reconhece e se alicerça sobre a teoria nativa. Pensa o campo a partir do campo. Seu papel é traduzir o que e como pensam os atores sociais. Entendendo suas práticas como algo que não se repete da mesma forma em diferentes contextos. Mas que acontece de tal maneira em dados espaços, porque, as experiências dos sujeitos, suas vivências se diferenciam de tantas outras em tantos outros lugares.
São nas particularidades de cada cultura que antropologia se permite ser antropologia (lembrando: isso na sua perspectiva pós-moderna. Longe de pensarmos como Lévi- Strauss e seu estruturalismo, porém, sem negar sua contribuição que é muito válida para a antropologia). É, não vou mais citar ninguém agora, deixarei para citá-los em artigos, senão vou querer citar tanto, já que gosto tanto e de tantas coisas que esse texto vai parecer mais um artigo, e isso não é a intenção.
Voltemos, e o antropólogo, o que faz? Na tentativa de ser ou tentar ser tantas outras coisas, a meu ver, ele só pode ser o tradutor da fala do outro, o interprete de uma teoria (isso é lindo)!!! Como se sabe e se diz muito; “toda tradução é imprecisa”, (isso é feliz)! A antropologia é, e isso é apenas mais um ponto de vista de uma aspirante à antropóloga (estudante de antropologia política), um olhar, outro olhar sobre esse outro, uma segunda leitura, e aí me vem Geertz, (desculpem-me mais uma vez, difícil não teorizar). É outra visão, e assim sendo, ora somos cegos pela luz intensa, outrora impedidos de ver na escuridão, (isso se fortaleceu em mim a partir da fala de minha amiga Fabi, antropóloga mestranda da UFBA – Universidade Federal da Bahia).
Escrito por Cicinha Andrade em 15 de agosto de 2010